Na manhã de 14 de março de 2000, um programa novo apareceu em um servidor corporativo da AOL. Na época, a AOL era a maior empresa de internet do mundo. Dois meses antes, ela havia anunciado a fusão com a Time Warner, dona de estúdios de cinema, canais de TV e uma das maiores gravadoras do planeta.
O programa se chamava Gnutella. Ele permitia trocar arquivos, músicas principalmente, sem servidor central: cada computador conectado era um pedaço da rede, e não existia tomada para puxar da parede. A nota de lançamento, publicada na página da própria empresa, terminava com um recado atrevido: "Viu? A AOL pode trazer coisas boas!"
Quem assinava era um funcionário de 21 anos chamado Justin Frankel. A AOL derrubou a página horas depois e classificou tudo como "projeto paralelo não autorizado". Tarde demais: mais de dez mil pessoas já haviam baixado o programa no primeiro dia, e um protocolo sem dono não obedece a ordem de recolhimento.
Para entender como a maior empresa de internet do planeta acabou hospedando, no próprio site, a ferramenta que a indústria fonográfica mais temia, é preciso voltar três anos: até um quarto em Sedona, cidadezinha encravada no deserto do Arizona.
Frankel cresceu ali, filho de um advogado e de uma funcionária dos correios. Aprendeu a programar sozinho no Atari 8-bit do irmão e, na escola, era ele quem administrava a rede de computadores. Em 1996, baixou o primeiro MP3 da vida: "Pepper", da banda Butthole Surfers. O formato era novidade e prometia música com qualidade de CD em arquivos pequenos; os tocadores disponíveis, porém, eram todos ruins. No mesmo ano ele entrou na Universidade de Utah para estudar ciência da computação, aguentou dois trimestres e largou.
De volta ao quarto, escreveu o próprio tocador e o publicou na internet em abril de 1997, aos dezoito anos. Batizou o programa de Winamp e a empresa de um homem só de Nullsoft, provocação matemática com a Microsoft: se "micro" é pequeno, "null" é nada. O modelo de negócio era a boa vontade: quem gostasse podia mandar US$ 10 pelo correio. E mandaram. Os cheques passaram a render dezenas de milhares de dólares por mês, e em 1998 o Winamp acumulava mais de quinze milhões de downloads.
Até o bordão do programa era uma piada de iniciados: "Winamp: it really whips the llama's ass", algo como "isso açoita o traseiro da lhama", homenagem a uma música de Wesley Willis, artista de rua de Chicago que Frankel admirava. A lhama virou mascote de uma geração inteira que abria o tocador antes de abrir qualquer outra coisa.
Em 1998, com Tom Pepper, ele criou o SHOUTcast, que transformava qualquer computador em uma rádio na internet. A dupla Winamp + SHOUTcast era exatamente o que a AOL queria para conquistar o público jovem. Em junho de 1999, ela comprou a Nullsoft por cerca de US$ 100 milhões em ações, dentro de um pacote de US$ 400 milhões que incluía também o serviço de rádio online Spinner. A fatia pessoal de Frankel: US$ 59 milhões, na casa dos R$ 300 milhões em valores atuais. Ele tinha vinte anos.
A AOL achava que tinha comprado uma tecnologia e uma audiência. Tinha comprado também um temperamento. E ninguém leu essa letra miúda. Em uma reunião interna, o programador resumiu o choque de culturas aos executivos: "Olha, os nossos usuários não querem usar a AOL! Eles acham a AOL uma porcaria!" O episódio foi relatado pelo jornalista David Kushner no perfil que a Rolling Stone publicou sobre Frankel.
Nove meses depois da compra veio o episódio do Gnutella, o do início desta história. O nome misturava GNU, o projeto de software livre, com Nutella, o creme de avelã. O timing não poderia ser pior para o comprador: a AOL estava em plena fusão com uma gravadora, e o Napster, que fazia algo parecido, já estava sendo processado até a morte. A diferença era técnica: o Napster dependia de servidores centrais, e servidor central pode ser desligado por decisão judicial, como de fato foi em 2001. O Gnutella não tinha o que desligar.
Frankel nunca aceitou o rótulo de pirata. "O Napster era uma empresa construída sobre pessoas fazendo coisas ilegais. Isso é errado", disse à Rolling Stone. A motivação dele, nas próprias palavras: "eu não ganharia dinheiro nenhum com isso. Eu estaria dando poder às pessoas." Do protocolo abandonado nasceram LimeWire, BearShare e a geração de programas que embalou os downloads de metade dos adolescentes brasileiros dos anos 2000.
Por que a AOL não o demitiu ali mesmo? Porque o Winamp seguia valioso, e Frankel era o Winamp. A empresa escolheu tolerar. E o Wall Street Journal deu nome à política: Frankel era "o canhão solto da AOL".
O canhão seguiu atirando. Em setembro de 2000, ele publicou o AIMazing, que trocava os banners de publicidade do mensageiro AOL Instant Messenger por uma imagem pulsando no ritmo da música. Derrubado. Em 2003, quando a RIAA, a associação da indústria fonográfica americana, começou a processar usuários comuns às centenas, Frankel respondeu com o WASTE: uma rede criptografada e por convite, pensada para grupos pequenos. O nome era uma referência ao sistema postal secreto do romance "O Leilão do Lote 49", de Thomas Pynchon. Ele tentou convencer a AOL a lançar o produto oficialmente. Ouviu não. Publicou por conta própria em 28 de maio de 2003. E a data não era acaso: aniversário de quatro anos da compra da Nullsoft. Uma provocação com hora marcada.
A AOL derrubou o WASTE em poucos dias e chegou a exigir que quem o tivesse baixado o apagasse. Dias depois, Frankel anunciou que ia embora; a crise foi contornada e ele ficou, por mais alguns meses. Em dezembro de 2003, a AOL fechou o escritório da Nullsoft em San Francisco dentro de uma rodada de centenas de demissões. Na semana seguinte, saiu o Winamp 5.0, o último trabalho da equipe original. Em 22 de janeiro de 2004, Frankel confirmou a saída no blog pessoal com a economia de palavras de sempre: "Não vou repetir aqui (em duas palavras: me demiti)."
Em um texto anterior, depois apagado, ele já havia explicado o motivo com a frase que resume a guerra inteira: "Para mim, programar é uma forma de expressão. E a empresa controla o meio de expressão mais eficaz que eu tenho."
Os dois lados dessa separação envelheceram de maneiras muito diferentes. A AOL manteve o Winamp em banho-maria por uma década. Anunciou o desligamento em novembro de 2013 e, no apagar das luzes, vendeu a marca para a belga Radionomy por algo entre US$ 5 milhões e US$ 10 milhões, perto de um décimo do que havia pagado no auge. Frankel fundou a Cockos e criou o REAPER, estação de trabalho de áudio hoje respeitada em estúdios do mundo inteiro. É vendida a preço acessível, sem travas de ativação, por uma empresa minúscula que não responde a conglomerado nenhum. Ele construiu, enfim, a anti-AOL. E ela deu certo.
A AOL comprou o programador, nunca o programa
A fúria da AOL era legítima, e vale dizer isso com todas as letras. Frankel usou infraestrutura corporativa para publicar, sem autorização, software que expunha a empresa a risco jurídico real, em pleno noivado com uma gravadora. Um funcionário comum teria sido demitido por justa causa no primeiro episódio. Ele fez três vezes, ficou, e ainda saiu rico.
O outro lado é que a AOL passou quatro anos punindo exatamente aquilo que tinha comprado. O valor da Nullsoft nunca foi só o código: era a lhama, o deboche, a comunidade que confiava no programa justamente porque ele não parecia coisa de corporação. A cada rebeldia lixada, a AOL matava um pedaço do ativo, até sobrar uma marca em banho-maria que valia um décimo do preço.
O eco moderno é difícil de ignorar. As gigantes de IA de hoje pagam centenas de milhões em acqui-hires (compram a empresa inteira só para ficar com meia dúzia de cérebros), e uma parte notável desses cérebros vai embora no primeiro ano. A lição de 2000 continua de pé: dá para comprar o produto, o código e até o contrato do criador. A motivação dele não assina cláusula de permanência.
O Winamp trocou de dono mais de uma vez desde então e segue vivo, meio zumbi, meio relíquia. Frankel nunca mais teve um.
Leia também: A Estagiária de 19 Anos que "Hackeou" o Bug do Milênio · O Nobreak que Salvou um Clássico Europeu · A Era dos Agentes de IA: Você Vai Ser Liberado ou Substituído?
Verificação concluída: história reconstruída a partir do perfil "The World's Most Dangerous Geek", de David Kushner, publicado na Rolling Stone em janeiro de 2004 e republicado pelo autor; do ensaio da Slate sobre o fim da Nullsoft (2004); e da cobertura de época da venda para a Radionomy (2014). As citações de Frankel foram traduzidas do inglês pelo 4nerd. Sobre o preço da Nullsoft: as fontes da época variam entre US$ 80 milhões e US$ 100 milhões em ações; adotamos o valor citado pela Rolling Stone e pela Slate; a fatia pessoal de US$ 59 milhões corresponde às 522.661 ações de Frankel reportadas na imprensa. O bordão da lhama vem da música "Whip the Llama's Ass", de Wesley Willis (1963–2003).