Ele Criou o Vírus ILOVEYOU e Sumiu por Quase 20 Anos Sem Ser Preso

Em maio de 2000, o vírus ILOVEYOU causou US$ 10 bilhões em prejuízo mundial. Seu criador nunca foi preso e sumiu por quase 20 anos, até ser encontrado consertando celulares em Manila.

Banca modesta de conserto de celulares em um mercado popular de Manila, ferramentas de reparo e peças espalhadas sobre a bancada, luz quente de fim de tarde, nenhuma pessoa em quadro

Em abril de 2019, o jornalista britânico Geoff White entrou em um mercado de conserto de celulares no distrito de Quiapo, em Manila. Levava um papel com um nome escrito à mão. Mostrava para os lojistas, um por um, perguntando se alguém reconhecia aquele nome. Ele estava atrás de um homem que tinha sumido de vista havia quase vinte anos, desde a manhã em que se tornou, por algumas semanas, um dos rostos mais procurados da internet.

O nome era Onel de Guzman. Em 4 de maio de 2000, um e-mail com o assunto "ILOVEYOU" começou a se espalhar pelo mundo. Quem abria o anexo, um arquivo chamado "LOVE-LETTER-FOR-YOU", ativava um script que sobrescrevia arquivos no computador, roubava senhas salvas e se reenviava sozinho para todos os contatos da agenda do Outlook. Em 24 horas, mais de 45 milhões de computadores foram infectados. Em dez dias, o vírus já tinha atingido cerca de 10% de todas as máquinas conectadas à internet no planeta. O prejuízo estimado passou de US$ 10 bilhões, entre arquivos perdidos, sistemas paralisados e horas de trabalho para limpar a bagunça.

A lista de vítimas incluía a Câmara dos Comuns britânica, que precisou desligar os servidores de e-mail por duas horas, o Departamento de Justiça e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, a CIA, e o Exército americano, que contou 2.258 estações de trabalho infectadas. A NASA perdeu arquivos que nem o backup conseguiu recuperar. Bancos na Bélgica pararam. Era, até então, o surto de malware mais rápido e mais caro já registrado.

Onel de Guzman tinha 23 anos e estudava ciência da computação na AMA Computer College, em Manila. Fazia parte de um grupo de hackers amadores chamado GRAMMERsoft. Anos depois, contaria a Geoff White o motivo real por trás do vírus: ele não tinha dinheiro para pagar a assinatura de internet discada e queria roubar senhas de acesso de outras pessoas. "Eu não esperava que chegasse aos Estados Unidos e à Europa. Fiquei surpreso", disse. Sobre o nome do vírus, a explicação foi quase ingênua: "Percebi que muita gente quer um namorado, quer alguém, quer amor, então chamei assim".

O FBI e a Polícia Federal filipina rastrearam o endereço de e-mail usado para roubar as senhas até um apartamento em Manila. Quando os agentes chegaram, De Guzman não estava lá. Encontraram Reonel Ramones, namorado da irmã dele, e o prenderam. Ramones, que trabalhava em um banco e não tinha nenhuma relação com o vírus, foi solto no dia seguinte por falta de provas.

De Guzman apareceu em uma entrevista coletiva em 11 de maio de 2000, ao lado de um advogado, e deu respostas evasivas sobre ter criado o vírus de propósito ou por acidente. "É possível", chegou a responder, quando perguntado se o lançamento tinha sido acidental. Depois daquele dia, não falou publicamente de novo por quase duas décadas.

A Justiça filipina nunca conseguiu processá-lo. Em 2000, não existia lei nenhuma nas Filipinas contra a criação ou disseminação de vírus de computador. Promotores tentaram enquadrar De Guzman em leis sobre fraude de cartão e dano intencional, mas as acusações foram derrubadas por falta de base legal. Semanas depois, o presidente filipino Joseph Estrada assinou a primeira lei do país sobre crimes eletrônicos. Não valia para o caso: leis não retroagem.

Foi esse buraco na história, o rapaz que sumiu sem nunca responder por nada, que levou Geoff White a Quiapo em 2019. Um post de fórum de 2016 dizia que De Guzman trabalhava consertando celulares na região. White passou horas circulando entre as bancas até que um lojista reconheceu o nome no papel e indicou outro ponto, dentro de um shopping popular perto dali. De Guzman apareceu depois de uma longa espera. Tinha 44 anos e administrava sozinho, com um único funcionário, uma pequena banca de conserto de celular. Ali, pela primeira vez desde 2000, confirmou por gravação que tinha escrito o vírus.

Ele se descreveu como uma pessoa tímida, incomodada com qualquer resquício da fama que não quis. "Às vezes minha foto aparece na internet. Meus amigos falam: 'é você!' Eu sou uma pessoa tímida, não quero isso", disse a White. Sobre um colega de faculdade citado por décadas como possível coautor do vírus, De Guzman foi categórico: negou qualquer participação dele, disse que escreveu tudo sozinho. A dúvida sobre esse segundo nome nunca foi resolvida de vez, mas a autoria principal, essa sim, deixou de ser mistério naquele dia em Quiapo.

Ele Não Pagou Nada Pelo Que Custou Bilhões

De um lado, é difícil chamar De Guzman de vilão no sentido clássico. Ele tinha 23 anos, não tinha dinheiro para internet, e o próprio relato dele sugere que a escala do desastre o pegou de surpresa tanto quanto pegou o resto do mundo. Não houve motivação ideológica, nem lucro, nem alvo escolhido a dedo. Foi um golpe pequeno e pessoal que escapou do controle de um jeito que nenhum código malicioso tinha escapado antes.

Do outro lado, US$ 10 bilhões em prejuízo não desaparecem porque a intenção era pequena. Governos, hospitais e bancos gastaram semanas limpando a bagunça, e a pessoa responsável nunca pagou multa, nunca cumpriu pena, nunca precisou responder a um processo até o fim. O sistema que deveria ter uma resposta pronta para esse tipo de dano simplesmente não existia ainda. A brecha não era de caráter, era de lei.

O eco moderno é direto: quase 25 anos depois, ainda existem países sem legislação forte o bastante para responsabilizar quem cria ransomware e ataques em escala industrial, e boa parte do crime cibernético de hoje opera exatamente nessa mesma lacuna, escondida atrás de jurisdições sem tratado de extradição. A lição do ILOVEYOU não é sobre um vírus antigo. É sobre uma brecha que a internet ainda não fechou.

Leia também: O Garoto que Vendeu o Winamp por US$ 100 Milhões e Declarou Guerra ao Comprador · A Estagiária de 19 Anos que "Hackeou" o Bug do Milênio · O Nobreak que Salvou um Clássico Europeu

Verificação concluída: história reconstruída a partir da investigação do jornalista Geoff White, publicada em seu livro "Crime Dot Com" (2020) e relatada em primeira mão no artigo "Love Bug Virus Creator Comes Clean"; dos dados de danos e infecção citados por CNN Business e Forbes, conforme reunidos na página da Wikipédia sobre o ILOVEYOU (com as respectivas fontes primárias citadas); e da cobertura da época sobre a prisão e libertação de Reonel Ramones. As citações de Onel de Guzman foram traduzidas do inglês pelo 4nerd. A identidade de um possível segundo autor do vírus, um colega de faculdade frequentemente citado online, segue disputada: De Guzman nega qualquer participação dele.