Em 11 de agosto de 1999, o pesquisador de segurança Richard Smith recebeu um e-mail de um desconhecido. O remetente se apresentava como Phil Bucking, da Bucking Consulting, e trazia uma denúncia explosiva: a AOL, dona do mensageiro mais popular do planeta, estava explorando uma falha de segurança do próprio programa, de propósito, dentro do computador de milhões de usuários.
Smith tinha o hábito profissional de desconfiar. Antes de qualquer coisa, abriu o cabeçalho do e-mail (o registro técnico que mostra o caminho que a mensagem percorreu até chegar). A conta era do Yahoo, criada para a ocasião. O endereço de origem, não: o IP apontava direto para a sede da Microsoft, em Redmond.
Phil Bucking não existia. A denúncia, por incrível que pareça, era verdadeira. E a história por trás desse e-mail desastrado é a parte que ninguém conta sobre o programa que o Brasil mais amou nos anos 2000: o MSN Messenger.
Três semanas antes, em 22 de julho de 1999, a Microsoft tinha colocado no ar o MSN Messenger Service, nome de batismo do MSN. O mercado já tinha dono: o AIM, o mensageiro da AOL, somava dezenas de milhões de usuários, com ICQ e Yahoo dividindo o resto. E mensageiro tem uma física própria: ninguém troca de programa para conversar com uma lista de contatos vazia.
A Microsoft sabia disso. Por isso embutiu no Messenger a solução mais atrevida possível: o programa entrava ao mesmo tempo no servidor da Microsoft e no da AOL, juntava as duas listas de amigos em uma só e deixava você conversar com qualquer usuário do AIM sem ter o AIM instalado. Dentro da equipe, o recurso tinha apelido: interop, de interoperabilidade (a capacidade de sistemas diferentes conversarem entre si).
Só havia um detalhe: a AOL nunca autorizou nada disso.
Quem conta essa história de dentro é David Auerbach, na época um programador de 20 anos, o mais novo de uma equipe de cerca de dez pessoas. Anos depois, ele publicou o relato "Chat Wars" na revista n+1. Para fazer o Messenger falar com o AIM, ele e o chefe criaram uma conta no mensageiro da AOL e observaram a conversa entre o programa e o servidor usando um monitor de rede (ferramenta que registra tudo o que entra e sai do computador). Assim, o protocolo do AIM foi copiado peça por peça, em um trabalho clássico de engenharia reversa: estudar como algo funciona por fora para reconstruir por dentro.
Deu certo demais. Dois dias depois do lançamento, a briga estampava a primeira página do New York Times: "No ciberespaço, rivais duelam por mensagens". A AOL bloqueou o Messenger. A Microsoft ajustou o programa para imitar o AIM ainda melhor. A AOL mudou o protocolo. Auerbach mudou o Messenger no mesmo dia. Virou rotina de trabalho: bloqueio de manhã, desbloqueio à tarde.
Em um dos rounds, a AOL jogou sujo com requinte. Mudou o protocolo para todos os usuários, exceto para quem entrava a partir da sede da Microsoft. O mundo inteiro via o Messenger quebrado, e a equipe encarregada de consertar não via problema nenhum. "Depois de uma ou duas horas coçando a cabeça, a gente entendeu", contou Auerbach.
Foi então que a AOL cruzou uma linha que ninguém esperava. O servidor passou a enviar aos programas conectados um pacote de dados grande demais, que estourava um buffer (o espaço reservado na memória para receber informação) e fazia o computador do usuário executar um código enviado pelo próprio servidor. Esse código lia um endereço específico da memória e devolvia o valor encontrado: se batia, era o AIM verdadeiro; se não, era um impostor. Jonathan, engenheiro do time do Messenger, decifrou o truque ao notar uma sequência de "90" repetidos no tráfego, a assinatura de instruções vazias em linguagem de máquina.
Tradução: para desmascarar o rival, a AOL explorava uma falha grave de segurança do próprio produto, dentro do computador de dezenas de milhões de pessoas. A mesma técnica, em mãos mal-intencionadas, serviria para rodar qualquer coisa na máquina do usuário.
A Microsoft não tinha como copiar esse truque sem embutir de propósito a mesma falha no Messenger. Restava contar ao mundo. Mas uma denúncia assinada exigiria explicar o que a Microsoft fazia dentro da rede da AOL sem convite. A saída escolhida foi Phil Bucking, o consultor imaginário do início desta história. O resto você já sabe: Smith olhou o cabeçalho, o IP entregou tudo, e a Microsoft admitiu publicamente a autoria. A manchete deixou de ser "AOL explora falha nos próprios usuários" e virou "Microsoft inventa identidade falsa para atacar rival". Pouco depois, a empresa desistiu do interop, e a guerra acabou com a Microsoft derrotada nas duas frentes ao mesmo tempo.
O Messenger seguiu a vida sozinho. E aí aconteceu o que ninguém previu: ele venceu do jeito mais lento e mais chato possível. Em 2000, ganhou os emoticons, e Auerbach reivindica um marco da cultura digital: segundo ele, o Messenger foi o primeiro programa de chat americano a transformar dois-pontos e parêntese em uma carinha de verdade. Em junho de 2009, o serviço registrava 330 milhões de usuários ativos por mês.
Nenhum lugar do planeta abraçou o programa como o Brasil. Em 2007, o país tinha 30,5 milhões de contas, a maior base do mundo, 12% de tudo o que o Messenger somava globalmente. Segundo o Ibope/NetRatings da época, 74% dos brasileiros com acesso à internet tinham entrado no MSN naquele mês. Se você tinha um computador em casa (ou uma lan house por perto) entre 2003 e 2010, a sua vida social provavelmente passava por ali: o apelido com letra de música, o "ocupado" que não enganava ninguém, o zumbido chacoalhando a janela da conversa. E, para milhões de brasileiros, o "MSN Plus", a extensão de personalização que quase todo mundo jurava ser da Microsoft. Não era, e essa história rende um capítulo próprio.
O AIM, vencedor da guerra de 1999, nunca chegou perto disso. Foi definhando em silêncio até ser desligado em 2017, sem inimigo nenhum por perto. Só por falta de gente.
O fim do MSN veio em etapas. Em janeiro de 2013, a Microsoft, já dona do Skype, avisou por e-mail que o Messenger seria desligado em 15 de março daquele ano. No resto do mundo, foi. No Brasil, a migração ficou para 30 de abril: a base brasileira era grande demais para desligar junto com o resto, e o país virou o último do planeta a perder o MSN, com uma única exceção. Na China, por acordos locais, o serviço resistiu até 31 de outubro de 2014.
Anos depois da guerra, Auerbach encontrou por acaso, em uma festa, um dos engenheiros da AOL que passaram 1999 bloqueando o trabalho dele. Nenhum rancor: os dois riram juntos do episódio. "Foi um grande jogo", resumiu Auerbach. O engenheiro concordou.
A Briga de 1999 Continua, Só Mudou de Nome
Dá para defender os dois lados até hoje. A rede era da AOL: os servidores, a conta de luz e os anos de investimento eram dela, e a Microsoft entrou sem pedir licença para usar tudo isso de graça. Qualquer empresa teria bloqueado. Do outro lado, a lista de amigos era sua, não da AOL. A Microsoft defendia, por interesse próprio, claro, uma ideia que faz sentido: você deveria poder conversar com quem quiser, a partir do programa que preferir, como sempre foi com o telefone e o e-mail.
Vinte e cinco anos depois, os nomes mudaram e a briga é a mesma. iPhone e Android ainda separam conversas por cor de balão. O WhatsApp só começou a aceitar mensagens de outros aplicativos na Europa porque uma lei, o Digital Markets Act, obrigou. A pergunta de 1999 segue aberta: a sua lista de contatos pertence a você ou ao dono do servidor?
A única certeza é a ironia do desfecho. AIM e MSN, os dois exércitos daquela guerra, estão mortos. O e-mail, protocolo aberto desde o início, sem dono e sem bloqueio, enterrou os dois.
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Verificação concluída: história reconstruída a partir do ensaio autobiográfico "Chat Wars", de David Auerbach (n+1, edição 19, 2014), engenheiro da equipe original do MSN Messenger; da análise técnica independente de Geoff Chappell (1999) sobre o estouro de buffer explorado pela AOL, que preserva inclusive o e-mail original de "Phil Bucking" com os cabeçalhos; e da cobertura de época da CNN (20 de agosto de 1999). Os números do Brasil vêm de reportagem do Baguete (agosto de 2007), com dados da Microsoft e do Ibope/NetRatings. Datas de lançamento e desligamento conforme a cobertura de época reunida na Wikipédia (com fontes primárias citadas). As citações e a manchete do New York Times ("In Cyberspace, Rivals Skirmish Over Messaging", 24 de julho de 1999) foram traduzidas do inglês pelo 4nerd.