O "MSN Plus" que o Brasil Inteiro Instalou Nunca Foi da Microsoft

A extensão que colocava cor no MSN era obra de um programador solitário, o Patchou, e era bancada por um adware que quase ninguém percebia estar instalando junto.

Quarto adolescente dos anos 2000 à noite com monitor CRT em ângulo exibindo o MSN Messenger customizado pelo Messenger Plus: lista de contatos colorida, janelas com abas e skin personalizada

Em algum momento entre 2003 e 2010, você provavelmente digitou "baixar MSN Plus" em um site de busca. Todo mundo digitou. Era o rito de passagem de quem queria o nome colorido, o apelido piscando, as conversas em abas e aquele status personalizado que o MSN comum, teimosamente, não deixava fazer.

E se alguém perguntasse de quem era aquele programa, a resposta parecia óbvia. Chamava "MSN Plus", instalava por cima do MSN, funcionava dentro do MSN. Era da Microsoft, claro.

Não era. O nome verdadeiro era Messenger Plus!, e ele era obra de um único programador francês, radicado no Quebec, no Canadá, conhecido na internet como Patchou. A Microsoft nunca autorizou, nunca endossou e, em um episódio que quase ninguém conheceu por aqui, chegou a premiar e desautorizar o criador na mesma semana.

O nome dele é Cyril Paciullo. Em 19 de maio de 2001, ele publicou a primeira versão do que chamava de "The Messenger Plus! Extension", um projeto de fim de semana feito ao lado do emprego de programador. A ideia era simples de descrever e ousada de executar: um programa que se acoplava ao MSN Messenger oficial e destravava tudo o que a Microsoft mantinha fechado.

E a lista do que ele destravava explica sozinha o sucesso. Texto formatado e colorido. Várias contas abertas ao mesmo tempo. Conversas em abas, anos antes de o próprio Windows aceitar a ideia. Registro do histórico das conversas, com direito a criptografia. Skins que trocavam a cara do programa inteiro. E o "modo chefe", que escondia todas as janelas do MSN com um atalho, recurso de descrição honesta e finalidade universalmente compreendida.

O MSN oficial era engessado de propósito: a Microsoft controlava a experiência de ponta a ponta, e personalização nunca foi prioridade da casa. O Plus! existia exatamente na fresta entre o que o usuário queria e o que a empresa entregava. No Brasil, onde o Messenger tinha a maior base de usuários do planeta, essa fresta era um continente.

Ficava só uma pergunta, que quase ninguém fez na época: se o programa era de graça e feito por um homem só, quem pagava a conta?

A resposta morava dentro do instalador. A partir de maio de 2003, o Plus! passou a vir acompanhado de um "programa de patrocínio" que a maioria das pessoas aceitava sem ler, dentro daquela tela de termos que todo mundo pula. Quem aceitava não ganhava só o Plus!: ganhava também o lop.com, um adware (programa que exibe publicidade e altera configurações para gerar cliques) da empresa C2 Media, famoso nos fóruns de segurança por sequestrar o navegador com atalhos e janelas indesejadas. Durante anos, esse aviso só existiu em inglês, dentro de um texto com cara de contrato qualquer. Pesquisadores de segurança apontavam ainda um detalhe constrangedor: era a própria C2 Media quem hospedava o site oficial do Plus!.

Patchou nunca escondeu o arranjo, e a defesa dele foi sempre a mesma: o patrocinador era opcional, dava para recusar na instalação, não era perigoso e era o que permitia manter o programa gratuito e ele trabalhando no projeto em tempo integral. Nas palavras dele, os programas de segurança que soavam o alarme não sabiam distinguir "uma solução limpa de adware de um spyware nojento".

O mundo da segurança discordava com veemência. E a Microsoft se viu no meio dessa briga duas vezes, nas duas na posição mais desconfortável possível.

A primeira foi em agosto de 2005, quando o Windows AntiSpyware, o produto de segurança da própria Microsoft, marcou o Messenger Plus! como spyware. A comunidade de usuários reagiu como torcida organizada: uma petição em defesa do programa juntou 401.683 assinaturas, foi entregue em 20 de setembro, e três dias depois a Microsoft voltou atrás na classificação. Releia com calma: quatrocentas mil pessoas assinaram um abaixo-assinado para defender o programa que instalava adware nas máquinas delas. Poucas empresas de software conseguem esse nível de lealdade cobrando caro; o Patchou conseguia de graça.

A segunda foi em outubro de 2006, e rendeu uma das reviravoltas mais rápidas da história dos prêmios corporativos. A Microsoft concedeu a Paciullo o título de MVP, o selo com que reconhece os maiores contribuidores técnicos da comunidade. MVPs de segurança se revoltaram em público. "A Microsoft está premiando alguém com envolvimento ativo com um dos nomes mais malfalados do sequestro de PCs", escreveu Christopher Boyd, ele próprio um MVP de segurança. Uma semana depois, o prêmio foi revogado. A nota oficial da Microsoft reconheceu a "expertise técnica e forte contribuição à comunidade" do premiado, mas explicou que o status caiu "assim que a extensão da conexão entre o aplicativo dele e spyware ficou aparente para o programa MVP".

O epílogo dessa história tem um sabor irônico. No início de 2010, o patrocinador saiu de vez do instalador, na versão 4.84, e naquele fevereiro o Plus! contava mais de 62 milhões de usuários. A essa altura, porém, o programa já não pertencia mais só ao criador: desde o fim de 2009, o controle estava com a Yuna Software, empresa que comprou o produto, e no início de 2011 Paciullo anunciou a saída definitiva, declarando encerrado "esse capítulo" da vida profissional dele. Fez o caminho do criador do Winamp, guardadas as proporções: construiu sozinho, virou fenômeno, vendeu, saiu.

O Plus! ainda tentou renascer como extensão para o Skype, mas era tarde. Quando a Microsoft desligou o MSN, em 2013, levou junto o chão onde o Plus! pisava. Um programa que só existia acoplado a outro não sobrevive ao hospedeiro.

O Preço do "De Graça" Já Era Esse

O caso do Plus! é fácil de julgar e difícil de condenar. De um lado, o arranjo com o lop.com tinha tudo o que hoje chamaríamos de dark pattern: a caixa pré-configurada, o texto em língua estrangeira, o aviso escondido em um contrato que ninguém lê. Milhões de máquinas, muitas delas brasileiras, ganharam um sequestrador de navegador de brinde, e a maioria dos donos nunca soube de onde ele veio.

Do outro lado, Paciullo entregou sozinho, durante uma década, o produto que uma das maiores empresas do mundo se recusava a fazer, e nunca cobrou um centavo de quem soubesse ler uma tela de instalação com atenção. A Microsoft, que tinha todos os motivos jurídicos e técnicos para esmagar o Plus!, preferiu conviver com ele: era mais barato tolerar o programa que deixava os usuários felizes do que explicar por que o MSN oficial não fazia nada daquilo.

O eco moderno dispensa esforço. Toda extensão gratuita de navegador que pede acesso a "todos os dados de todos os sites", todo aplicativo de lanterna que quer sua lista de contatos, todo "grátis" bancado por um modelo de negócio invisível é o instalador do Plus! de novo, só que sem a honestidade desajeitada do contrato em inglês. A pergunta que valia em 2003 segue valendo: você leu o que estava marcado antes de clicar em avançar?

Leia também: O MSN que o Brasil Amou Nasceu em uma Guerra Suja Contra a AOL · O Garoto que Vendeu o Winamp por US$ 100 Milhões e Declarou Guerra ao Comprador · Ele Criou o Vírus ILOVEYOU e Sumiu por Quase 20 Anos Sem Ser Preso

Verificação concluída: história reconstruída a partir da documentação histórica do Messenger Plus! na Wikipédia (com as fontes primárias citadas, incluindo a petição de 401.683 assinaturas de setembro de 2005 e os 62 milhões de usuários de fevereiro de 2010); da cobertura de época do episódio do MVP pela Computerworld (6 de outubro de 2006) e pela InfoWorld (9 de outubro de 2006), fontes das citações de Christopher Boyd e da nota oficial da Microsoft; da análise técnica dos MVPs de segurança da Microsoft sobre o vínculo entre o instalador, o lop.com e a C2 Media (incluindo a hospedagem do site oficial); e da cobertura da Neowin de época sobre o programa de patrocínio. As citações foram traduzidas do inglês pelo 4nerd. Não há número verificável de usuários do Plus! especificamente no Brasil; o retrato do uso brasileiro se apoia na base recorde do MSN no país, detalhada na matéria da guerra MSN vs. AOL linkada acima.