No acervo do Museu Nacional de História Americana, do Instituto Smithsonian, entre relíquias da eletricidade e da corrida espacial, existe um CD de brinde da AOL. Um daqueles que chegavam pelo correio sem ninguém pedir, prometendo horas grátis de internet. O museu guarda o disco pelo mesmo motivo que guarda lâmpadas de Edison: durante uma década, aquele pedaço de plástico foi a porta de entrada da vida digital para dezenas de milhões de pessoas.
Esta é a matéria que fecha um ciclo aqui na série. A AOL apareceu como compradora arrependida na história do Winamp, como dona do AIM na guerra suja contra o MSN e como dona do ICQ na história do número que o Brasil decorava. Faltava contar a história dela mesma: como uma empresa de acesso discado virou dona de meia internet, e o que exatamente sobrou disso.
A parte dos CDs tem nome e sobrenome: Jan Brandt, executiva de marketing que chegou à AOL em 1993, quando o serviço tinha cerca de 200 mil assinantes. Vinda do mundo da mala direta, ela testou o instinto com uma campanha de US$ 250 mil enviando disquetes de instalação pelo correio. Mais de 10% de quem recebeu assinou o serviço, uma taxa de resposta absurda para o padrão do setor. Estava inventada a estratégia que a própria empresa apelidaria de bombardeio de tapete.
Nos anos seguintes, o disquete virou CD e o correio virou só um dos canais. Disco da AOL vinha dentro de caixa de cereal, no assento do avião, no balcão do banco, encartado em revista. No lançamento do AOL 4.0, em 1998, a empresa contratou toda a produção mundial de CDs durante semanas, segundo a própria Brandt: nenhum disco de música saiu das fábricas naquele período sem esperar a vez. Ela estima que, no auge, metade dos CDs produzidos no planeta carregava o logotipo da AOL. No pico da campanha, a empresa ganhava um assinante novo a cada seis segundos, e a base saltou de 8 para 16 milhões em um ano. O custo total? "Definitivamente na casa dos bilhões", nas palavras dela. Deu tão certo que virou paisagem: o CD da AOL foi porta-copos, espanta-passarinho de pomar e peça de arte em mosaico antes de virar peça de museu.
Com o caixa cheio e a ação inflada pela bolha da internet, a AOL saiu às compras. Em 1998, levou o ICQ por até US$ 407 milhões. Em 1999, a Netscape, o navegador que definiu a web dos anos 90, em um negócio anunciado por US$ 4,2 bilhões, e a Nullsoft do Winamp dentro de um pacote de US$ 400 milhões. MapQuest, Moviefone e dezenas de outras vieram junto. No auge, mais de 26 milhões de assinantes pagavam mensalidade para acessar a internet, e a "internet", para boa parte deles, era o que existia dentro da AOL: e-mail, salas de bate-papo, notícias e o famoso aviso de voz "You've got mail", que virou até título de filme com Tom Hanks e Meg Ryan.
O topo exato tem data: 10 de janeiro de 2000. Naquele dia, a AOL anunciou a fusão com a Time Warner, dona da Warner, da HBO, da CNN e de uma das maiores gravadoras do mundo, em um negócio avaliado na casa dos US$ 165 bilhões, o maior da história corporativa até então. No papel, a empresa da internet discada tinha engolido o império centenário da mídia. Foi essa AOL gigante, no meio dessa fusão, que os leitores desta série viram derrubar o Gnutella de Justin Frankel e travar guerra contra o MSN.
O Brasil conheceu essa AOL no mesmo embalo, e a passagem dela por aqui merece um parágrafo à parte. A AOL Brasil estreou em novembro de 1999, em sociedade com o grupo venezuelano Cisneros e o Banco Itaú, prometendo virar a maior provedora do país. Chegou despejando CDs no varejo e patrocinando o Rock in Rio III por R$ 33 milhões. Mas o software de acesso exigia navegador próprio, os discos da campanha de estreia ficaram famosos por causar problemas nos computadores, e em 2000 o iG inaugurou por aqui o acesso discado gratuito, dinamitando o modelo pago. Em 2005, a operação estava estagnada em uns 125 mil clientes. Em 17 de março de 2006, a AOL desistiu do Brasil e vendeu a base para o Terra por algo entre US$ 750 mil e US$ 1,9 milhão. A aventura brasileira tinha consumido cerca de US$ 200 milhões.
O tombo global foi na mesma proporção. A bolha estourou, a banda larga começou a matar a discada, e a fusão dos sonhos virou estudo de caso de desastre: em 2002, a AOL Time Warner reportou prejuízo de US$ 98,7 bilhões, o maior da história corporativa americana até então. Em 2003, a Time Warner tirou "AOL" do próprio nome, o divórcio simbólico. Em 2009, a AOL foi devolvida ao mundo como empresa separada, magra e sem rumo, com o AIM e o Winamp definhando na prateleira e o ICQ prestes a ser vendido aos russos pela metade do preço.
E aí vem a resposta à pergunta do título, que é mais estranha do que parece: a AOL não morreu. Ela se adaptou duas vezes. A primeira reinvenção foi virar empresa de mídia e publicidade: comprou o TechCrunch em 2010 e o Huffington Post por US$ 315 milhões em 2011, apostando que conteúdo pagaria as contas que a discada já não pagava. Deu certo o suficiente para a Verizon comprá-la em 2015 por US$ 4,4 bilhões, uns 3% do valor da fusão de 2000. A segunda foi virar linha de produto: a Verizon fundiu AOL e Yahoo, empacotou tudo e repassou ao fundo Apollo em 2021, por cerca de US$ 5 bilhões. Hoje a AOL é uma marca dentro da Yahoo Inc.: um portal, um serviço de e-mail que milhões ainda usam e assinaturas de suporte técnico e segurança que muita gente idosa paga até hoje, algumas sem saber bem pelo quê.
O detalhe mais teimoso desse epílogo: a internet discada da AOL, o produto original de 1991, só foi desligada em 30 de setembro de 2025, dez meses atrás, depois de 34 anos no ar. Em 2023, cerca de 160 mil americanos ainda se conectavam ouvindo o modem cantar, por medo de perder o e-mail antigo ou por puro hábito. O império sobreviveu à própria era mais tempo que qualquer um previu.
O Império Não Faliu: Ele Evaporou
É justo reconhecer o que a AOL acertou, porque não foi pouco. Ela fez a coisa mais difícil da história da internet comercial: convenceu dezenas de milhões de pessoas comuns, que nunca tinham visto um navegador, a entrar online pela primeira vez. O bombardeio de CDs, hoje lembrado como piada, foi uma das operações de distribuição de software mais eficazes já executadas, em uma época em que "baixar um programa" não era opção para quem ainda nem estava conectado.
O que ela nunca aprendeu foi o que fazer com o que comprava. Netscape, ICQ, Winamp: três dos ativos mais amados da internet entraram pela porta da AOL e saíram irrelevantes, sempre pelo mesmo roteiro que esta série contou em capítulos. A empresa comprava audiências apaixonadas e asfixiava, uma a uma, as razões da paixão. E o modelo de negócio central, cobrar pela porta de entrada da internet, tinha prazo de validade que ninguém quis enxergar enquanto o dinheiro entrava.
O eco moderno fica como pergunta, porque desta vez o veredito ainda não saiu. As gigantes de hoje também compram tudo o que ameaça ou encanta, também constroem jardins murados onde "a internet" é o que existe dentro do aplicativo, e também acreditam que a posição atual é permanente. A AOL de janeiro de 2000 valia US$ 165 bilhões e era invencível. Vinte e cinco anos depois, o que restou dela cabe em uma linha de produto de um fundo de investimento, e o objeto que melhor a representa está em uma vitrine de museu, ao lado das coisas que o mundo usava quando era tudo mato.
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Verificação concluída: história reconstruída a partir da entrevista de Jan Brandt ao Internet History Podcast (2014) e da cobertura do TechCrunch (2010) sobre a campanha dos CDs (fontes das estimativas de "metade dos CDs do mundo", do custo "na casa dos bilhões" e do salto de 8 para 16 milhões de assinantes, todas atribuídas à própria executiva); do acervo do National Museum of American History, que mantém um CD da AOL catalogado; da reportagem da Exame sobre a operação brasileira (Cisneros/Itaú, Rock in Rio III, 125 mil clientes, venda ao Terra em 2006); da cobertura de época da fusão AOL-Time Warner (2000), do prejuízo recorde de US$ 98,7 bilhões (2002) e das vendas à Verizon (2015, US$ 4,4 bilhões) e ao fundo Apollo (2021); e do anúncio oficial da AOL sobre o fim da internet discada em 30 de setembro de 2025, coberto no Brasil pelo Hardware.com.br. Valores da fusão de 2000 variam entre fontes (US$ 165 bilhões no anúncio; algumas contabilizam mais com dívidas); adotamos o valor do anúncio. As citações foram traduzidas do inglês pelo 4nerd.