No dia 8 de junho de 1998, a AOL pagou US$ 287 milhões à vista, com bônus que levariam o total a US$ 407 milhões, por uma empresa de dois anos de idade e cerca de setenta funcionários, a maioria contratada havia menos de um ano. Receita: zero. E não era zero "por enquanto". O produto era de graça, e não existia plano nenhum para começar a cobrar.
A empresa se chamava Mirabilis, ficava em Israel, e o produto era o ICQ, o programa que ensinou o mundo, e o Brasil, a conversar em tempo real na internet. Se o nome AOL soa familiar nesta série, deveria: é a mesma empresa que compraria o Winamp um ano depois. E quando a Microsoft lançou o MSN em 1999 e invadiu a rede do AIM, a AOL já era dona dos dois maiores mensageiros do planeta. Nenhuma guerra daquela época se entende sem este capítulo aqui.
A história começa em uma mesa de ping-pong. Quatro programadores de vinte e poucos anos, Yair Goldfinger, Sefi Vigiser, Amnon Amir e Arik Vardi, se encontravam para jogar na casa de Amir e discutir ideias de negócio. A primeira aposta da Mirabilis, fundada em junho de 1996 com o apoio de Yossi Vardi, pai de Arik e veterano da indústria israelense, nem era mensageiro: chamava MetaWear e queria conectar redes de pager (o "bip", aquele aparelhinho que só recebia recados) à internet.
O desvio de rota veio de uma irritação prática. A internet de 1996 era um lugar estranho: milhões de pessoas conectadas, e nenhuma maneira de saber quem estava ali naquele momento. Para trabalhar junto com alguém online, era preciso ligar por telefone antes e combinar a hora. Goldfinger, cansado disso, escreveu uma ferramenta que avisava quando os colegas entravam na rede. Perceberam que tinham nas mãos algo maior que o projeto original. Anos depois, os fundadores resumiriam a decisão sem nenhum romantismo: "Poderíamos ter escolhido outra ideia qualquer. Nem tivemos tempo de pensar no tamanho que aquilo teria. Foi puro destino."
O ICQ, trocadilho com "I Seek You" ("eu procuro você"), foi lançado em 15 de novembro de 1996, gratuito. Sem verba de marketing, chegou a meio milhão de usuários em pouco tempo e passou a somar um milhão de instalações por mês, espalhado de boca em boca, ou melhor, de número em número.
Porque no ICQ você não era um nome. Era um número. O servidor distribuía identificações sequenciais, os UINs, começando no 100.000, e aquela sequência de dígitos virava sua identidade: ia para o caderno, para a assinatura do e-mail, para o verso da foto. Decorava-se o próprio UIN como se decorava telefone de casa. Os números curtos, de quem chegou primeiro, viraram símbolo de status, tão cobiçados que décadas depois ainda existia mercado paralelo para eles: em 2010, um UIN "bonito" passava dos 11 mil rublos na Rússia.
No Brasil, o ICQ chegou junto com a primeira onda de internet doméstica, a da linha discada, do modem cantando e da conexão que caía quando alguém tirava o telefone do gancho. Foi a primeira febre de mensageiro do país, anos antes de o MSN existir. A flor que mudava de cor para mostrar quem estava online, o recado que chegava mesmo com o amigo desconectado e, acima de tudo, o "uh-oh!", o alerta agudo que fazia todo mundo na sala saber que tinha mensagem nova. Quem viveu, ouviu o som agora.
A venda para a AOL, no auge dessa ascensão, mudou dois países ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, a AOL somou o ICQ ao seu AIM e consolidou o império dos mensageiros que a Microsoft tentaria invadir um ano depois. Em Israel, o negócio ficou conhecido como o primeiro grande "exit" da história do país e acendeu a indústria que o mundo depois apelidaria de startup nation: a palavra "exit" virou gíria em hebraico por causa deles. Goldfinger imortalizou a fase com a frase do próprio irmão: "Sinto muito que não tenha acontecido comigo, mas fico feliz que não tenha acontecido com o irmão de mais ninguém, só com o meu."
O ICQ passou dos 100 milhões de cadastros por volta de 2001, o pico da vida dele. E então começou a morrer devagar, pelas mãos do próprio dono. A AOL nunca descobriu como ganhar dinheiro com o programa que custou US$ 407 milhões, e deixou o produto parado enquanto a concorrência corria: o MSN vinha de graça com o Windows e integrado ao Hotmail, e a multidão brasileira migrou em bloco, levando a lista de amigos para o lado em que os amigos já estavam. Em 2007, como contamos na matéria da guerra dos mensageiros, o Brasil era o maior país do MSN no mundo. A flor do ICQ murchou aqui sem nenhum anúncio oficial.
Em abril de 2010, a AOL vendeu o ICQ para a russa Digital Sky Technologies por US$ 187,5 milhões, menos da metade do que pagou doze anos antes, mesmo com o serviço ainda somando 42 milhões de usuários diários, boa parte deles na Rússia e no leste europeu, onde o programa teve uma segunda vida longa. Foi lá que ele envelheceu, ainda com 11 milhões de usuários mensais em 2022, até o anúncio seco de maio de 2024: o serviço fecharia em 26 de junho. Morreu aos 28 anos, com a dona, a VK, sugerindo aos órfãos que migrassem para os aplicativos dela.
Usuários Primeiro, Dinheiro Depois: a Herança que Enterrou o Dono
A Mirabilis não inventou só o mensageiro moderno. Inventou, quase por acidente, o modelo de negócio que define a internet até hoje: cresça primeiro, cobre depois, ou nunca. Em 1998, pagar US$ 407 milhões por uma empresa sem receita parecia loucura da bolha. Dezesseis anos depois, o Facebook pagou US$ 19 bilhões pelo WhatsApp, outro mensageiro sem receita, e ninguém mais achou estranho. A conta do ICQ tinha virado o manual.
O outro lado é que o próprio ICQ mostra o custo desse modelo. Quando o produto é grátis e não sustenta a si mesmo, o destino dele pertence inteiro a quem o compra. A AOL não matou o ICQ por maldade: matou por negligência, deixando na gaveta um produto que não sabia transformar em dinheiro. Os usuários, que nunca foram clientes, não tiveram voto.
Fica a herança mais silenciosa, que todo brasileiro daquela época carrega sem perceber. O UIN foi a primeira vez que a gente virou um número na internet, uma identidade que morava no servidor de uma empresa do outro lado do mundo. Hoje esse número é o seu telefone no WhatsApp, e a pergunta da matéria da guerra continua de pé: a sua lista de contatos nunca foi sua.
Leia também: O MSN que o Brasil Amou Nasceu em uma Guerra Suja Contra a AOL · O "MSN Plus" que o Brasil Inteiro Instalou Nunca Foi da Microsoft · O Garoto que Vendeu o Winamp por US$ 100 Milhões e Declarou Guerra ao Comprador
Verificação concluída: história reconstruída a partir da reportagem do Calcalist/CTech sobre a Mirabilis e o "primeiro exit israelense" (fonte da origem na mesa de ping-pong, do projeto MetaWear, da estrutura do negócio com a AOL e das citações dos fundadores, traduzidas do inglês pelo 4nerd); da documentação histórica do ICQ na Wikipédia (com fontes primárias citadas: lançamento em 15/11/1996, UINs sequenciais a partir de 100.000, valorização de UINs curtos em 2010, venda à DST por US$ 187,5 milhões, 42 milhões de usuários diários em 2010, 11 milhões mensais em 2022 e o encerramento em 26/06/2024); e da cobertura brasileira do encerramento pela InfoMoney (2024). Não existem números públicos confiáveis de usuários do ICQ especificamente no Brasil nos anos 90; o retrato do uso brasileiro se apoia na memória cultural documentada pelas retrospectivas nacionais e no contexto da internet discada da época.