Em 2004, advogados da empresa Affinity Engines vasculhavam o código-fonte do Orkut atrás de prova de furto. Encontraram uma evidência incomum: nove bugs de programação exclusivos, erros específicos demais para surgirem por acaso duas vezes, presentes tanto no InCircle, produto da própria Affinity, quanto no site novo do Google. Bug não se copia de propósito. Bug se herda quando alguém copia o código inteiro.
O nome do réu na mira era Orkut Büyükkökten, engenheiro turco, doutor por Stanford, que dois anos antes tinha ajudado a fundar a própria Affinity Engines antes de sair para o Google. O produto dele lá dentro nasceu pequeno: um projeto pessoal, feito no chamado "tempo dos 20%", a política da empresa que liberava um dia da semana para ideias livres. Büyükkökten programou a primeira versão em um único fim de semana e mostrou o resultado a Marissa Mayer, executiva de produto do Google, em um daqueles encontros informais de expediente. O nome do serviço saiu batizado com o do próprio criador, e a versão pública foi ao ar em 22 de janeiro de 2004, de início só por convite, replicando o mesmo modelo de exclusividade que ele já tinha testado com o Club Nexus, a rede social que criara para estudantes de Stanford em 2001. Sobre a ambição do projeto, o próprio Büyükkökten resumiu mais tarde: "Meu sonho era conectar todos os usuários da internet para que pudessem se relacionar, isso poderia fazer tanta diferença na vida das pessoas."
A acusação da Affinity levou dois anos para se resolver e terminou em acordo extrajudicial em 2006, sem confissão de culpa admitida publicamente. Mas o estrago mais interessante daquele processo não foi jurídico: foi a curiosidade histórica de que um dos maiores fenômenos culturais da internet brasileira carregava, no próprio esqueleto de código, cicatrizes de outro produto que ninguém nunca usou.
Porque foi aqui, longe de Stanford e do Vale do Silício, que o Orkut deixou de ser curiosidade de engenheiro e virou fenômeno de massa. O convite exclusivo, pensado para criar escassez artificial no público americano, se espalhou pelo Brasil como corrente. Em pouco tempo o país assumiu a liderança global de usuários, e a distância só cresceu: no dia em que o serviço foi desligado, em 2014, 55,5% de todo o tráfego mundial do Orkut ainda vinha do Brasil, contra 18,4% da Índia, o segundo colocado. Nenhum outro produto de internet importado teve essa desproporção de adoção em um único país fora de origem.
O Google reagiu ao próprio fenômeno de um jeito raro: em 2008, transferiu a operação inteira do Orkut, escritório, engenharia e decisão de produto, para o Brasil, sediando o time em Belo Horizonte. Não foi gentileza. Foi reconhecimento de mercado e, ao mesmo tempo, resposta a uma pressão que crescia dos dois lados: legal e humana.
Porque o mesmo tamanho que fez o Orkut brasileiro por excelência também o transformou em palco do pior que a internet sem moderação podia produzir. A partir de 2005, casos de racismo entre usuários passaram a ser documentados pela imprensa e levados à polícia. Em 2006, a Justiça Federal determinou que o Google entregasse dados de perfis suspeitos de disseminar pornografia infantil, sob multa diária de US$ 23 mil por descumprimento. A pressão cresceu até virar CPI: a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pedofilia, no Congresso Nacional, convocou o diretor-geral da empresa para explicar a proliferação de milhares de páginas com esse conteúdo, e uma força-tarefa do Ministério Público Federal em São Paulo chegou a apurar que cerca de 90% de todo o material criminoso investigado pelo grupo de combate a crimes cibernéticos do órgão vinha justamente do Orkut. O impasse, que começou em 2005, só se resolveu em 2007, com um acordo formal entre Google e Ministério Público Federal para quebrar o sigilo de comunidades e perfis envolvidos em crimes de pedofilia e racismo. Não é orgulho de fã-clube. É parte da conta que o sucesso descontrolado cobrou.
A ascensão sem freio esbarrou, no fim, em um adversário que não vinha do direito: vinha do produto. O Facebook, mais simples, com feed cronológico e curva de aprendizado menor, começou a corroer a base de usuários em todo o mundo a partir de 2008 e 2009. O Orkut resistiu no Brasil mais tempo do que em qualquer outro lugar, mas a migração era questão de tempo. O Google anunciou o fim em 30 de junho de 2014, e desligou os servidores em definitivo em 30 de setembro daquele ano, encerrando dez anos e oito meses de existência.
O criador seguiu tentando recriar o próprio milagre. Em 2016, Büyükkökten lançou o Hello, novo aplicativo social, lançado já com versão em português, mirando explicitamente o público que tinha feito o Orkut decolar. Não emplacou: fechou as portas em 2022, sem alarde, sem nem a fração do barulho que cercou o fim do antecessor. Em abril daquele mesmo ano, a página do Orkut chegou a ser reativada por um instante com uma mensagem prometendo retorno. Não veio nada depois.
Foi o Brasil Que Decidiu o que o Orkut Significou
Vale reconhecer o mérito técnico e humano por trás da história: um projeto de fim de semana, nascido do tempo livre de um engenheiro dentro de uma empresa gigante, se tornou a rede social mais usada da história de um país inteiro. Poucas ideias de fim de semana mudam a vida social de 55% do tráfego mundial de qualquer coisa.
Mas o Orkut nunca foi só a nostalgia dos depoimentos e das comunidades bem-humoradas. Foi também o primeiro grande experimento nacional de rede social sem moderação séria, em uma escala que a legislação brasileira da época simplesmente não sabia enquadrar. A CPI, a força-tarefa do Ministério Público e o acordo de 2007 não são rodapé incômodo da história: são o motivo real pelo qual o Google tirou o produto de perto de si, sediando-o oficialmente aqui, perto do próprio problema que ele tinha criado.
O eco moderno não exige esforço de imaginação. Toda vez que uma plataforma nova cresce rápido demais para a própria capacidade de moderar, o roteiro se repete: euforia de adoção, escala descontrolada, pressão regulatória tardia, acordo ou multa, declínio de produto por concorrência mais simples. O Orkut só foi o primeiro brasileiro a rodar esse ciclo inteiro, do fim de semana no Google ao desligamento dos servidores dez anos depois.
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Verificação concluída: história reconstruída a partir da cobertura de época do processo Affinity Engines vs. Google, incluindo a reportagem do MIT Technology Review (2004) sobre os nove bugs de software citados no processo (acordo extrajudicial fechado em 2006, sem admissão pública de culpa); da documentação biográfica de Orkut Büyükkökten na Wikipédia (com fontes primárias citadas, incluindo a citação sobre o "sonho de conectar todos os usuários da internet", o Club Nexus em Stanford e o app Hello); da documentação histórica do Orkut na Wikipédia (data de lançamento em 22/01/2004, transferência da operação para Belo Horizonte em 2008, participação do tráfego mundial por país em 30/09/2014, datas de anúncio e encerramento); e da cobertura jurídica brasileira sobre a CPI da Pedofilia e o acordo entre Google e o Ministério Público Federal, incluindo a reportagem da ConJur (2006) e registros do Senado Federal sobre a comissão parlamentar. As citações foram traduzidas do inglês pelo 4nerd quando aplicável.