37 Anos Depois do Lançamento, o Master System Ainda é Vendido Novo no Brasil

O Sega Master System chegou ao Brasil em 1989 e nunca mais saiu de linha. A TecToy ainda fabrica e vende o console, hoje por menos de R$ 200, décadas depois de a Sega abandonar o hardware em praticamente todo o resto do mundo.

Console Sega Master System TecToy visto de perto sobre uma mesa de madeira, ao lado de uma fita cassete de jogo em português e um controle de fio, em ambiente doméstico brasileiro

No Master System vendido no Brasil, o herói clássico da Sega não se chama Alex Kidd. Chama-se Chapolin. A TecToy pegou o japonês baixinho de macacão vermelho, criado para ser o astro da marca antes de Sonic existir, e o trocou pelo herói atrapalhado do seriado mexicano "Chapolin Colorado", dublado à exaustão na TV brasileira por décadas. O jogo se chama "Chapolin x Drácula: Um Encontro Assustador" e nunca existiu em nenhum outro país do planeta.

Esse tipo de decisão parece piada de fã isolada, mas é a norma na história do Master System no Brasil, não a exceção. O console que a Sega lançou no Japão em 1985 e descontinuou na maior parte do mundo ainda anos atrás segue de fabricação nova por aqui, hoje por menos de R$ 200 em lojas físicas e virtuais, trinta e sete anos depois de chegar ao país.

A empresa por trás disso é a TecToy, fundada em setembro de 1987 por Daniel Dazcal, que tinha acabado de deixar a Sharp, e pelos irmãos Leo e Abe Kryss, donos da Evadin, fabricante de televisores associada à Mitsubishi. O primeiro produto da parceria com a Sega não foi um videogame. Foi uma pistola de laser tag chamada Zillion, baseada em um desenho animado japonês, que vendeu tanto no Brasil que superou as vendas do brinquedo original no próprio Japão. A confiança conquistada com aquele brinquedo abriu a porta para o produto seguinte: o Master System chegou oficialmente às lojas brasileiras em setembro de 1989.

O momento não foi acaso. Desde 29 de outubro de 1984, a Lei federal nº 7.232, a chamada reserva de mercado, proibia na prática a importação de computadores e produtos de informática no Brasil. Qualquer fabricante estrangeiro que quisesse vender por aqui precisava de um sócio nacional disposto a produzir localmente, ou ficava de fora. A Nintendo, na época, não seguiu esse caminho: só formalizaria uma distribuidora oficial no país, a Playtronic, em 1993. Até lá, quem quisesse um videogame da marca japonesa comprava clone: os famosos "Nintendinhos", fabricados por engenharia reversa, sem licença, sem suporte, sem propaganda na televisão.

A Sega jogou diferente. Apostou na TecToy, e a TecToy apostou pesado. Traduziu cada jogo para o português, incluiu pilhas de brinde dentro da caixa, montou uma rede nacional de assistência técnica e gastou em propaganda de televisão de cinco a dez vezes mais que a concorrência, segundo o próprio fundador da empresa, Stefano Arnhold, em entrevista ao site especializado Sega-16. O resultado: o Master System chegou a dominar entre 75% e 80% do mercado brasileiro de videogames de 8 bits, uma fatia que a marca nunca teve em nenhum outro país do mundo.

Essa dominância abriu espaço para uma linha inteira de produtos que só existiu no Brasil. "Wonder Boy III" virou "Turma da Mônica em: O Resgate", com a Mônica e a turma no lugar dos personagens japoneses. Alex Kidd protagonizou pelo menos dois jogos brasileiros disfarçado de Chapolin, incluindo o duelo contra Drácula citado no início desta história. O hardware também ganhou versões que não existiram fora daqui: o Master System Super Compact, portátil e sem fio, lançado em 1994; o Master System Girl, edição na cor rosa com um jogo da Mônica já incluído; e, mais recentemente, o Master System Evolution, o modelo ainda vendido hoje, sem entrada para cartucho, com 132 jogos gravados direto na memória interna.

Quem compra um Master System novo em pleno 2026? Não é nostalgia pura. É o console mais barato disponível em loja de departamento, um caminho de entrada para famílias sem R$ 5 mil sobrando para um PlayStation 5, cujo preço no Brasil ultrapassou essa marca em 2026, mais de três salários mínimos, quase o dobro do valor equivalente cobrado nos Estados Unidos. Por menos de R$ 200, o Master System Evolution ainda funciona como o primeiro videogame de muita criança brasileira, do mesmo jeito que funcionou para os pais dela nos anos 90.

A Sega, oficialmente, saiu do negócio de fabricar consoles em 2001, quando encerrou o Dreamcast e virou apenas publicadora de jogos. Fora do Brasil, o Master System já tinha praticamente sumido das prateleiras havia anos. Aqui, o acordo de licenciamento com a TecToy nunca foi encerrado, e a fábrica seguiu rodando, primeiro em Cotia, no interior de São Paulo, depois, com exclusividade, no polo industrial de Manaus, para onde a produção foi consolidada em 2022, com o fechamento da unidade paulista e o desligamento de cerca de 200 funcionários.

A própria TecToy, porém, não é mais a empresa dos anos 90. Segundo reportagem da CNN Brasil, o fundador Stefano Arnhold deixou o comando em 2019, quando fundos de investimento assumiram o controle da companhia, então com a fábrica praticamente parada e apenas 35 funcionários. Hoje a empresa emprega cerca de 2 mil pessoas, mas o videogame retrô deixou de ser o motor do negócio: o setor que mais cresce ali dentro é o de automação de varejo, quiosques de autoatendimento e maquininhas de pagamento, com alta de 60% em um ano. "Não tivemos uma mudança de foco, mas uma diversificação do negócio", resumiu o presidente Valdeni Rodrigues à reportagem. Ainda assim, a linha de consoles retrô segue de pé: a empresa afirma produzir mais de 200 mil unidades por ano somando Master System e Mega Drive, e diz ter ultrapassado 8 milhões de Master Systems vendidos no Brasil até 2016.

Um Acordo de Licenciamento Que Sobreviveu ao Próprio Console

De um lado, o Master System brasileiro é um caso raro de aposta comercial dando certo décadas depois de a lógica original ter desaparecido. A reserva de mercado que empurrou a Sega para um sócio local morreu em 1992. A própria Sega parou de vender console novo em praticamente todo o resto do mundo há muito tempo. Mesmo assim, a marca sobrevive porque a TecToy soube fazer o que a matriz japonesa nunca fez em lugar nenhum: tratar o Master System como produto vivo, não como relíquia de museu. Trinta e sete anos de suporte contínuo, tradução, propaganda e variantes exclusivas não acontecem sozinhos.

De outro lado, o motivo de esse console ainda vender bem por menos de R$ 200 tem uma raiz nada nostálgica. O Brasil segue sendo um dos lugares mais caros do mundo para comprar um videogame novo. A mesma combinação de imposto de importação alto e câmbio desfavorável que, nos anos 80, empurrou a Sega para os braços da TecToy, empurra hoje uma criança brasileira para um console de 1985 em vez de um PlayStation 5. A tecnologia mudou. A conta, para quem compra, não.

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Verificação concluída: história reconstruída a partir da reportagem da XDA Developers (2026) e do perfil da Atlas Obscura sobre o Master System no Brasil; da entrevista do fundador Stefano Arnhold ao site especializado Sega-16 (2015); do verbete da Wikipédia sobre a Tectoy; da reportagem da Canaltech sobre a longevidade do console; da reportagem da CNN Brasil sobre a situação atual da empresa; e de reportagens sobre a reserva de mercado de informática publicadas pelo DIO e pela Oldbits. As citações de Stefano Arnhold e Valdeni Rodrigues foram traduzidas e adaptadas de suas fontes originais. O valor exato pago pela TecToy à extinta Taito do Brasil por direitos ligados à marca Sega no país varia entre relatos de época (entre US$ 200 mil e US$ 1 milhão) e não entrou nesta matéria por falta de fonte primária confiável. Preços de PlayStation 5 e Master System Evolution referem-se a valores de varejo praticados no Brasil em 2026 e podem variar por loja e região.