O E-mail Grátis Que Virou Cachaça Premium Vendida a uma Gigante Italiana

Marcos de Moraes vendeu o ZipMail à Portugal Telecom por US$ 365 milhões em um dos primeiros grandes negócios da internet brasileira. Parte do dinheiro virou a cachaça premium Sagatiba, comprada pela Campari em 2011.

Still life editorial de uma garrafa de cachaça premium sobre um balcão de madeira, ao lado de um disquete de 3,5 polegadas e um cabo de modem enrolado, luz quente de fim de tarde

Em agosto de 2011, a Campari, gigante italiana de bebidas dona do próprio nome que virou sinônimo de aperitivo em bares do mundo inteiro, anunciou a compra de uma cachaça premium brasileira chamada Sagatiba. Valor: US$ 26 milhões, mais um adicional equivalente a 7,5% das vendas anuais da marca pelos oito anos seguintes. Foi a primeira aquisição do grupo Campari no segmento de aguardentes.

Quase ninguém que brinda com uma garrafa de Sagatiba sabe de onde veio o dinheiro que criou a marca. A resposta está treze anos antes, em um serviço de e-mail grátis que ensinou o Brasil a usar a internet.

Em agosto de 1998, o empresário paulista Marcos de Moraes lançou o ZipMail, cópia declarada do modelo do Hotmail americano, dentro do portal Zip.net. A meta interna era modesta: 120 mil assinantes em seis meses. O serviço bateu 1 milhão de usuários em oito meses, com picos de 11 mil cadastros em um único dia. Em um ano, passou de 2 milhões de contas; no auge, chegou a 2,6 milhões.

A campanha de lançamento na TV teve a atriz Luana Piovani como garota-propaganda, decisão que ajudou a colocar o ZipMail na boca de uma geração que ainda discava para entrar na internet. O Brasil tinha cerca de 3 milhões de usuários conectados na época. Proporcionalmente, um em cada três acabou passando pelo ZipMail.

Moraes não era estreante. Filho de Olacyr de Moraes, o "rei da soja" que chegou a figurar entre os homens mais ricos do mundo, ele recusou a herança do agronegócio e usou um empréstimo de US$ 6 milhões do próprio pai para montar sua primeira empresa: uma operadora de pager chamada @cess, vendida pouco antes de o mercado de bipes desmoronar diante do celular. O ZipMail foi a aposta seguinte, e a que mudou de escala tudo o que veio depois.

O Zip.net cresceu rápido demais para ficar sozinho. O banco Unibanco comprou 11% da empresa poucos meses depois do lançamento. A companhia expandiu para viagens com o Ziptravel, fechou parceria com Pelé para atrair investidores e passou a fornecer acesso à internet para mais de 2.500 clientes corporativos.

Em fevereiro de 2000, segundo o anúncio contemporâneo da PT Multimédia, braço da Portugal Telecom, o grupo português comprou o Zip.net por US$ 365 milhões, parte em dinheiro e parte distribuída ao longo de três anos conforme metas de mercado. A Wikipédia em português e outras fontes retrospectivas datam o negócio de fevereiro de 1999; essa divergência entre a imprensa da época e os relatos posteriores não foi resolvida nesta apuração e fica registrada aqui. De qualquer forma, foi um dos primeiros grandes negócios da internet brasileira, e Moraes embolsou pessoalmente mais de US$ 300 milhões: seu patrimônio multiplicou por 45 de uma só vez. O dinheiro chegou dois meses antes de a Nasdaq perder US$ 350 bilhões em valor de mercado em um único dia, o estouro da bolha das pontocom. Moraes vendeu na hora certa.

Em fevereiro de 2001, Portugal Telecom e o grupo Folha, controlador do UOL, fecharam um acordo: a portuguesa entrou com 100% das ações do Zip.net mais US$ 100 milhões em dinheiro e ficou com 17,9% do UOL. O Zip.net, então o quarto maior portal do Brasil, foi incorporado à operação. Em novembro daquele ano, o UOL encerrou o portal e manteve apenas o webmail, que sobreviveu, cada vez mais esquecido, até ser desligado de vez em 29 de setembro de 2022.

Com a fortuna em mãos, Moraes testou fases variadas. Comprou participação em uma boutique de moda em Nova York chamada Language, frequentada por clientes como Gwyneth Paltrow, David Bowie e Naomi Campbell, e resumiu sua filosofia de negócios em uma frase só: "Pode ser ventilador ou luminária. O que me interessa é construir uma marca do nada." A frase, dita a respeito de moda, também descreve o que ele faria a seguir com bebida.

Em maio de 2004, ao lado dos sócios Roberto Biaggi e Lucas Rodas, Moraes lançou a Sagatiba, produzida em Patrocínio Paulista. O nome funde "saga", termo nórdico para aventura ou empreitada heroica, com "tiba", palavra tupi para infinito. A escolha por cachaça, e não outra bebida, tinha lógica de mercado: era o único destilado brasileiro com potencial de exportação relevante que ainda não havia "explodido" lá fora, ao contrário da caipirinha, já famosa em bares estrangeiros sem que muita gente soubesse do que ela era feita.

A Sagatiba contratou a agência londrina Saatchi & Saatchi para a campanha internacional e a F/Nazca Saatchi & Saatchi para a campanha brasileira, anunciou em revistas como a britânica Vanity Fair e a Esquire, e mirou bares de luxo em capitais europeias. No primeiro ano exportou cerca de 100 mil garrafas; em 2006, já eram 800 mil, metade delas para a Europa, com presença em 13 países. Anos depois, o próprio Moraes reconheceria em entrevista que o negócio não foi um bom investimento: ele havia calculado mal o risco.

Enquanto construía a Sagatiba, Moraes também colocou parte da fortuna do ZipMail em filantropia. Segundo reportagem da revista IstoÉ Dinheiro de agosto de 2005, ele investiu R$ 30 milhões do próprio bolso na criação do Instituto Rukha, organização batizada com um termo aramaico que significa "fôlego de vida" e voltada a tirar crianças dos sinais de trânsito de grandes cidades. O modelo trocava a esmola por um cartão pré-pago, com pagamento de até R$ 250 por mês durante cinco anos, condicionado à participação da criança em atividades de reforço escolar, informática ou esporte, oferecidas por quinze ONGs credenciadas. "Há várias ONGs fazendo, individualmente, belíssimos trabalhos. É um absurdo que não haja conexão entre elas", disse Moraes à revista. Ainda pelo Zip.net, ele também criou o Zip Educação, programa de conectividade para escolas públicas paulistas que, segundo seu próprio perfil na rede filantrópica internacional Synergos, chegou a beneficiar mais de seis milhões de estudantes e professores sem custo para o governo, um número que não encontrou confirmação em fonte independente.

Em 2011 veio a venda da Sagatiba à Campari, fechando o segundo grande capítulo financeiro da história. Hoje Moraes comanda a Lua.net, plataforma de comércio eletrônico voltada a pequenos empreendedores, e ocupa cadeiras em conselhos de organizações como a Bhutan Foundation e a Conservation International Brasil.

Uma fortuna de internet que insistiu em virar produto brasileiro

Há um jeito fácil de contar essa história como fracasso: um negócio de bebida que o próprio dono chamou de mal calculado, vendido por US$ 26 milhões depois de anos de investimento pesado em marketing internacional, uma fração pequena dos mais de US$ 300 milhões de origem. Pelo critério estritamente financeiro, a Sagatiba não pagou a conta.

Existe outro jeito de olhar. Em 2000, Moraes tinha a saída mais fácil de todas: guardar o dinheiro, virar investidor passivo, sair do país. Escolheu, em vez disso, apostar de novo em um produto genuinamente brasileiro com ambição de exportação, e ao mesmo tempo financiar, do próprio bolso, um programa social sem esperar retorno nenhum. A Sagatiba pode não ter sido um bom negócio; foi, ao menos, uma tentativa de transformar dinheiro de internet em algo que carregasse a marca do país lá fora.

O eco moderno é direto. Cada vez que um fundador brasileiro embolsa uma saída bilionária hoje, sobra a mesma pergunta que pairava sobre Moraes em 2000: o dinheiro fica aqui, reinvestido em algo novo e arriscado, ou vai para fora, em ativos anônimos que não constroem nada? Um quarto de século depois da venda do ZipMail, ainda não existe resposta certa, só escolhas.

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Verificação concluída: lançamento, crescimento e venda do ZipMail confirmados na Wikipédia em português (https://pt.wikipedia.org/wiki/Zipmail) e no anúncio contemporâneo da compra pela Portugal Telecom, publicado pela TeleTime em 16 de fevereiro de 2000 (https://teletime.com.br/16/02/2000/portugal-telecom-anuncia-a-compra-do-zip-net/), com a fusão Zip.net/UOL detalhada pelo Observatório da Imprensa (https://www.observatoriodaimprensa.com.br/primeiras-edicoes/zip-net/). Biografia de Marcos de Moraes e trajetória pessoal via reportagem do Jornal O Sul (https://www.osul.com.br/o-filho-de-um-dos-homens-que-esteve-entre-os-mais-ricos-do-mundo-nao-quis-ser-herdeiro-mesmo-assim-ficou-milionario-aos-33-anos/) e perfil da IstoÉ Dinheiro (https://istoedinheiro.com.br/estilo-marcos-moraes/). Instituto Rukha e citação direta de Moraes: IstoÉ Dinheiro, agosto de 2005 (https://istoedinheiro.com.br/a-ong-de-r-30-milhoes-de-marcos-de-moraes). História da marca Sagatiba: aletp.com.br (https://aletp.com.br/sagatiba-historia-da-marca/). Venda da Sagatiba à Campari: Gazeta do Povo (https://www.gazetadopovo.com.br/economia/sagatiba-e-comprada-pela-campari-bz9zxkbptebqh92005l5n3tji/) e ABRAS (https://www.abras.com.br/clipping/bebidas/22276/campari-compra-a-cachaca-sagatiba). Zip Educação e ocupações atuais de Marcos de Moraes: perfil institucional na Synergos (https://www.synergos.org/network/bio/marcos-de-moraes), fonte única, número de estudantes beneficiados não confirmado de forma independente. A data exata da venda do Zip.net à Portugal Telecom é fato disputado: a imprensa especializada da época (TeleTime, Jornal de Negócios de Portugal, Folha de Londrina) registra fevereiro de 2000, enquanto a Wikipédia em português e a IstoÉ Dinheiro citam 1999; não foi possível conciliar essa divergência com as fontes disponíveis.