Em 24 de julho de 1972, um bispo abençoou um computador.
A máquina pesava 100 quilos, tinha 1 metro de altura e ocupava quase um metro e oitenta de bancada dentro da Escola Politécnica da USP. Assistiram à cerimônia o governador de São Paulo, Laudo Natel, o reitor da USP, o jurista Miguel Reale, e Dom Ernesto de Paula, bispo que benzeu o equipamento como quem batiza um navio. O computador se chamava Patinho Feio.
O nome era piada. Anos antes, a Marinha brasileira tinha aberto uma espécie de concorrência entre universidades para desenvolver um computador nacional destinado à frota. A Unicamp entrou com um projeto batizado Cisne Branco, em homenagem ao hino da Marinha, e virou a aposta oficial, com bênção institucional. A Escola Politécnica da USP entrou também, sem favoritismo nenhum. Um grupo de 18 alunos de pós-graduação, orientados pelo professor americano Glen Langdon Jr., ex-funcionário da IBM no Brasil, batizou o próprio projeto de Patinho Feio. A piada era do mestrando Paulo Wanderlei Patullo: "Falávamos que estávamos construindo o Patinho Feio, mas que ele seria o primeiro a funcionar." No final, foi o único dos dois que saiu do papel. O Cisne Branco nunca funcionou.
A pressa da Marinha em ter um computador nacional não era ideológica, era prática e cara. No início dos anos 1970, a Marinha comprou fragatas inglesas da classe Niterói cujo sistema de combate, o CAAIS, rodava inteiro em minicomputadores Ferranti FM-1600B, fabricados no Reino Unido. Cada peça de reposição, cada atualização, cada consultoria técnica dependia de um único fornecedor estrangeiro, a preço de fornecedor estrangeiro. Um grupo de oficiais concluiu que dominar essa tecnologia tinha virado questão de segurança nacional, não só de orçamento.
A linhagem técnica do Patinho Feio não parou na cerimônia de 1972. A mesma equipe, agora em parceria com a PUC-Rio, desenvolveu o computador G-10, encomendado pela própria Marinha. O G-10 virou a base de projeto do MC-500, o primeiro computador comercial da Cobra Computadores e Sistemas Brasileiros, criada em 18 de julho de 1974 no Rio de Janeiro. E aqui a história dá uma volta irônica: a Cobra nasceu de uma sociedade entre a Marinha, o BNDE, o banco estatal de desenvolvimento, e a Ferranti, a mesma fabricante inglesa cujos computadores caros nas fragatas tinham disparado o problema todo. A empresa que virou símbolo da informática nacional teve, na certidão de nascimento, o nome do fornecedor estrangeiro que ela viria substituir.
Em 1980, a Cobra lançou o modelo 530, anunciado como o primeiro computador projetado e construído inteiramente em solo brasileiro. Vale a ressalva: o título de "primeiro computador brasileiro" segue disputado até hoje, entre o MC-500 de 1974 e o Dismac D-8000, fabricado em Manaus também em 1980, cada um com defensores próprios. Ninguém resolveu esse debate de vez, e talvez nunca resolva.
O sucesso técnico da Cobra virou munição política. Em 29 de outubro de 1984, o presidente João Figueiredo sancionou a Lei nº 7.232, a Política Nacional de Informática, formalizando o que ficaria conhecido como reserva de mercado: por oito anos, empresas de capital estrangeiro ficariam impedidas de vender computadores pessoais no Brasil, para dar espaço às fabricantes nacionais crescerem sem concorrência direta. A prática já vinha sendo aplicada informalmente desde 1979, pela Secretaria Especial de Informática, ligada ao Serviço Nacional de Informações, o órgão de inteligência do regime militar.
Na teoria, o país estava protegendo um berço de tecnologia própria. Na prática, quem viveu a década sentiu outra coisa. Um clone nacional do PC-XT, o Scopus Nexus 1600, passava dos 10 mil dólares da época por uma máquina que já nascia tecnologicamente atrasada em relação ao que se vendia lá fora. Quem morava perto da fronteira com o Paraguai contrabandeava computadores 386 turbo escondidos como se fossem arma ou droga, e virava, por tabela, a única gente no Brasil com acesso a tecnologia de ponta. A pirataria de software, hábito que o Brasil carrega até hoje, tem uma raiz direta nesses anos: sem concorrência de preço nem fiscalização de peso, copiar virou o caminho mais curto até um programa que funcionasse de verdade.
O fim veio de fora. Em 13 de novembro de 1987, o governo Reagan anunciou sanções comerciais contra o Brasil, alegando que a reserva de mercado fechava as portas para empresas americanas e alimentava a pirataria de software dentro do país. A ironia não escapou a ninguém: os dois problemas nasceram um do outro. O governo Sarney recuou rápido. Luciano Coutinho, secretário-geral de Ciência e Tecnologia da época, resumiu a rendição às próprias empresas nacionais em uma frase: "Vendam suas empresas para o capital estrangeiro, pois o Governo Brasileiro não irá mais apoiar a Política Nacional de Informática." A lei expirou oficialmente em outubro de 1992, sem alarde, quase duas décadas depois de um bispo abençoar a máquina que ajudou a começar tudo.
Uma Lei Nascida de Orgulho Nacional, Morta por Pressão Externa
De um lado, o impulso original nem sequer era xenófobo: era a Marinha querendo parar de depender de um único fornecedor estrangeiro para manter navios de guerra funcionando. O resultado técnico existiu de verdade. O Patinho Feio venceu o próprio favorito da Marinha, a Cobra produziu computadores de ponta a ponta em solo brasileiro, e o Brasil chegou a ter, por um tempo, uma indústria de hardware própria que hoje soa quase fictícia.
Do outro lado, oito anos sem concorrência internacional puniram exatamente quem a lei deveria proteger: o comprador brasileiro comum, que pagava caro por tecnologia velha ou recorria ao contrabando e à cópia pirata para ter o que o resto do mundo já usava. Proteger a indústria nascente sem prazo de validade claro nem meta de competitividade virou, na prática, um subsídio permanente a preço de atraso tecnológico.
O eco moderno é direto: toda discussão de tarifa de importação sobre carro elétrico chinês ou painel solar hoje reabre a mesma pergunta que ninguém respondeu direito nos anos 1980. Proteger uma indústria nascente funciona, até o dia em que vira desculpa para nunca crescer.
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Verificação concluída: história reconstruída a partir do artigo "O legado do Patinho Feio", da Revista Pesquisa Fapesp; da matéria sobre os 50 anos do Patinho Feio, do Instituto Vanzolini; do artigo "A Marinha e o desenvolvimento da Informática no Brasil", do Poder Naval; do texto "Origens militares da indústria nacional de informática", do Velho General; do texto da Lei nº 7.232 publicado no site oficial do Planalto e no LexML; do relato pessoal "Vivendo na época da Reserva de Mercado"; e do verbete da Wikipédia sobre a Política Nacional de Informática (com fontes primárias citadas). As citações de Paulo Wanderlei Patullo e Luciano Coutinho foram traduzidas/adaptadas conforme reproduzidas nessas fontes. A disputa sobre qual foi "o primeiro computador brasileiro" (Patinho Feio, MC-500 ou Dismac D-8000) segue sem consenso entre as fontes consultadas e é apresentada aqui como tal.