Em 27 de janeiro de 1985, o Corinthians entrou em campo contra o Vasco da Gama, pelo Campeonato Brasileiro, com uma marca nova estampada na camisa preta e branca: Kalunga. Na mesma tarde, uma câmera da Rede Globo filmava, no meio da torcida, uma cena da novela "Vereda Tropical". O ator Mário Gomes, no papel do personagem Luca, tinha acabado de realizar o sonho de vestir a camisa do Corinthians, e a cena usou justamente aquela partida real como cenário. A ficção de um jogador estreante e a estreia real de um novo patrocinador aconteceram no mesmo gramado, na mesma tarde, empatadas em 2 a 2.
O patrocinador não era cervejaria, banco nem montadora de carro, o tipo de empresa que costuma comprar espaço no peito de um time grande. Era uma rede de papelaria fundada treze anos antes, para vender caderno e caneta em um bairro de classe média de São Paulo.
Kalunga ficaria no uniforme do Corinthians até 18 de dezembro de 1994, em um empate por 1 a 1 contra o Palmeiras, na final do Campeonato Brasileiro daquele ano. Quase dez anos seguidos. Até hoje, segundo o site especializado Meu Timão, esse continua sendo o patrocínio mais longo já registrado na história do clube.
A empresa nasceu em maio de 1972, quando o ex-caixeiro-viajante Damião Garcia, natural de Bauru, abriu uma pequena papelaria na Rua Vergueiro, no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Garcia vinha do ramo gráfico e não tinha experiência prévia em varejo. A loja começou pequena, vendendo material escolar e de escritório para o comércio da vizinhança.
O nome da loja carrega uma disputa que a própria empresa nunca resolveu por completo. A versão oficial, repetida no site institucional da Kalunga e reproduzida pela Wikipédia e por publicações de mercado como a aletp.com.br, diz que "Kalunga" vem de um dialeto bantu e significa algo como "tudo de bom". Existe, porém, uma segunda versão, contada em blogs de história de marcas: Damião Garcia teria ouvido o nome pela primeira vez na casa de um amigo, como apelido de um cachorro que ele considerava o mais inteligente que já tinha visto em 73 anos de vida, e só depois descoberto que "Kalunga" também nomeava um povo africano. Nenhuma das duas versões tem uma fonte primária robusta por trás, e a empresa nunca publicou documentação da escolha.
O que existe, isso sim, com respaldo acadêmico, é o significado da palavra "kalunga" (ou "calunga") na cosmologia bantu do Congo e de Angola. Segundo o verbete da Wikipédia sobre a divindade Calunga e estudos sobre a epistemologia bakongo publicados pela Universidade Federal da Bahia, "kalunga" designa, entre os povos bakongo, a linha que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, associada ao mar como espaço de travessia entre os dois planos. Entre alguns povos de Angola, como os luenas e os ambós, a mesma palavra nomeia um deus criador ligado aos fenômenos da natureza. É um significado bem mais denso e espiritual do que a fórmula publicitária "tudo de bom", e ajuda a explicar por que a mesma raiz da palavra também batiza o Quilombo Kalunga, comunidade quilombola na região da Chapada dos Veadeiros, entre Goiás e a Bahia, cujo próprio site descreve o termo como algo "sempre ligado ao sagrado, ao secreto, ao especial". Não há evidência de que Damião Garcia conhecesse esse sentido mais profundo quando batizou a papelaria. O mais provável é que tenha ouvido a palavra de forma avulsa e a associado, depois, a uma explicação simpática o bastante para virar propaganda.
A papelaria virou distribuidora ao longo dos anos 1970 e 1980, vendendo por atacado para outras lojas e para empresas. Em 1988, a Kalunga comprou a Gráfica dos Salesianos e a rebatizou de Spiral do Brasil, criando linha própria de cadernos e produtos de papelaria, marca que a rede mantém até hoje. Foi nos anos 1990 que a empresa deu o salto que a conecta com este blog: à medida que máquinas de escrever davam lugar a computadores nos escritórios brasileiros, a Kalunga passou a vender softwares, cartuchos de tinta, mídias e equipamentos de informática dos principais fabricantes, e criou dentro das próprias lojas um segmento de varejo de tecnologia que hoje divide espaço com o material escolar tradicional. No fim da década, veio o site institucional; em 2001, a loja virtual, um dos primeiros grandes operadores de comércio eletrônico do país nesse segmento.
A ligação com o Corinthians não nasceu de uma agência de publicidade. Damião Garcia era torcedor e sócio do clube, e usou a proximidade pessoal para colocar a marca da própria empresa em um espaço que, em 1985, ainda era território pouco explorado. O patrocínio em camisa de futebol no Brasil engatinhava naquele momento: no ano anterior, o próprio Corinthians tinha trocado de patrocinador em sequência rápida, incluindo contratos curtos com a Citizen e a Bic. Uma reportagem sobre a morte de Garcia, publicada pelo site Futebol Interior, chegou a descrevê-lo como "um dos precursores do patrocínio na camisa do Timão". A aposta de longo prazo, em vez de contratos avulsos por temporada, era pouco comum para a época, e rendeu à Kalunga quase uma década de visibilidade nacional dentro de um time com torcida entre as maiores do país.
Por que o contrato terminou em 1994, exatamente nesse ano, nenhuma das fontes consultadas para esta matéria explica com clareza. Não há entrevista de época, nem declaração da Kalunga ou do Corinthians, detalhando um motivo específico, seja financeiro, seja estratégico. O que se sabe é o que veio depois: a tinta Suvinil assumiu o posto entre 1995 e 1996, período em que o Corinthians conquistou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil, seguida pela Excel, entre 1997 e 1998. A era das parcerias longas e discretas, do tipo que a Kalunga representou, foi dando lugar, nos anos seguintes, a contratos maiores e mais profissionalizados, com o auge chegando só em 1999, com a polêmica parceria entre o Corinthians e a Parmalat.
Para Damião Garcia, o vínculo pessoal com o clube sobreviveu ao fim do patrocínio comercial. A década de relacionamento rendeu a ele o título de conselheiro vitalício do Corinthians. Anos depois, entre 2003 e 2012, ele também presidiu o Noroeste, clube de sua cidade natal, Bauru, dividindo a vida, como descreveu uma reportagem sobre sua trajetória, "entre suas duas paixões: empreendedorismo e futebol". Garcia morreu em 22 de abril de 2016, aos 85 anos, velado no Cemitério do Morumbi.
A Kalunga segue em atividade, ainda comandada pela família Garcia, hoje sob os filhos José Roberto Garcia e Paulo Sérgio Garcia. A rede fechou 2024 com 225 lojas em 21 estados e faturamento bruto de R$ 2,525 bilhões, alta de 4,1% sobre o ano anterior, segundo relatório de administração da própria companhia enviado à Comissão de Valores Mobiliários. Em 2025, encerrou o ano com 215 lojas, uma retração no número total de unidades enquanto a empresa reorganiza a operação e mira, segundo reportagens do mercado financeiro, uma futura abertura de capital na bolsa: em 2020, a Kalunga chegou a protocolar pedido junto à CVM para listar ações no Novo Mercado da B3, mas cancelou o plano diante da volatilidade do mercado daquele ano, e desde então segue avaliando o momento certo para retomá-lo. Cerca de 70% das lojas ficam dentro de shopping centers, e a rede mantém três centros de distribuição no estado de São Paulo.
Um patrocínio pessoal em uma era sem esse tipo de patrocínio hoje
De um lado, o argumento simpático: o modelo Kalunga era, no fundo, um empresário torcedor colocando dinheiro no time do coração, em uma época em que patrocínio de camisa de futebol ainda não tinha virado a indústria bilionária e calculada que é hoje. Não existia estudo de retorno sobre investimento nem disputa entre casas de apostas pela camisa mais visível do país. Existia um sócio, uma marca que precisava de visibilidade nacional, e quase dez anos de constância que nenhum patrocinador conseguiu repetir depois.
Do outro lado, essa mesma informalidade explica por que ninguém consegue dizer, com uma fonte confiável, por que o contrato acabou. Relação pessoal cria continuidade, mas também cria fragilidade: sem contrato robusto, sem imprensa cobrindo negociação, a saída de um patrocinador de quase uma década pode passar sem deixar rastro documentado, o que é exatamente o caso aqui.
O eco moderno ajuda a medir a distância. Hoje, o peito das camisas de futebol brasileiro é disputado por casas de apostas esportivas e fintechs, empresas que não têm relação histórica nenhuma com o clube, apenas orçamento de marketing e um cálculo de audiência. Uma papelaria com sócio-torcedor no comando parece, à distância de quatro décadas, quase ingênua perto disso. Mas também é o tipo de patrocínio que, hoje, provavelmente não existiria mais.
Leia também: A Lei Que Fechou o Brasil para Computadores Importados Nasceu de uma Piada de Estudante · Antes do MSN, o Brasil Decorava um Número: a História do ICQ · Orkut: o Projeto de Fim de Semana Que o Brasil Adotou
Verificação concluída: fundação e crescimento da Kalunga confirmados pelo site institucional da própria empresa (kalunga.com.br/sobre-a-kalunga), pela Wikipédia em português (pt.wikipedia.org/wiki/Kalunga_(empresa)) e pela reportagem de história de marca da aletp.com.br (aletp.com.br/kalunga-historia-da-marca). Datas exatas do patrocínio ao Corinthians (27 de janeiro de 1985 a 18 de dezembro de 1994) e a cena da novela "Vereda Tropical" confirmadas pelo blog especializado em uniformes do clube, Uniformes do Timão (uniformesdotimao.blogspot.com/2013/10/1985-kalunga-rara.html), e cruzadas com a lista de patrocinadores da Wikipédia em português (pt.wikipedia.org/wiki/Patrocinadores_e_fornecedores_de_material_esportivo_do_Sport_Club_Corinthians_Paulista). Biografia e morte de Damião Garcia via Blog do Paulinho (blogdopaulinho.com.br/2016/04/22/morreu-damiao-garcia-da-kalunga) e reportagem da 99 Empreendedores sobre sua trajetória entre empresa e futebol (99empreendedores.com.br/damiao-garcia). Números financeiros e de lojas de 2024 e 2025, e o histórico de tentativa de abertura de capital, via relatórios de administração da Kalunga S.A. protocolados na CVM (ri.kalunga.com.br) e reportagens do Seu Dinheiro e da Suno Notícias sobre o pedido de listagem na B3. Significado bantu de "kalunga"/"calunga" como fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos, associada ao mar, via verbete da Wikipédia sobre a divindade Calunga e artigo sobre epistemologia bakongo publicado pela Universidade Federal da Bahia (edgardigital.ufba.br). Uso do termo pelo Quilombo Kalunga, na Chapada dos Veadeiros, via site oficial da comunidade (quilombokalunga.org.br). A origem exata do nome da empresa Kalunga é fato disputado entre a explicação oficial ("tudo de bom", em dialeto bantu) e uma versão alternativa, de fonte única e não confirmada, sobre o nome de um cachorro (origemdasmarcas.blogspot.com/2011/10/kalunga.html); nenhuma das duas foi confirmada por documentação da própria empresa. O motivo exato do fim do patrocínio em 1994 não foi encontrado em nenhuma fonte consultada e é apresentado aqui como lacuna, não como fato resolvido.