Quarta-feira, 16 de junho de 1999, 22h07. Um despacho curto do noticiário especializado TeleTime informa que a Telefônica Interativa Brasil, subsidiária do grupo espanhol Telefónica, comprou 51% de uma empresa avaliada em US$ 500 milhões. A nota nem usa a palavra Terra, porque a marca ainda não existia. O nome da empresa comprada era Nutec, e ela tinha nascido onze anos antes em uma sala comercial de Porto Alegre.
Passariam ainda sete meses até aquele negócio virar o portal que quase todo brasileiro reconhece hoje como espanhol. A Terra chegou ao mercado em 2000 como marca da Telefónica, lançada ao mesmo tempo na Espanha e em cinco países da América Latina, e ficou associada para sempre ao sotaque castelhano da controladora. A origem gaúcha simplesmente desapareceu da história contada.
Ela começou com dois analistas de sistemas formados na UFRGS. Marcelo Lacerda largou um emprego bem posicionado na Edisa, fornecedora de computadores que mais tarde viraria a HP Brasil, para abrir uma empresa de software ao lado do colega de faculdade Sérgio Pretto. A Nutec nasceu em 1988 vendendo automação de escritório para ambientes Unix, com uma filial que chegou a operar nos Estados Unidos. Não tinha nada de internet ainda: o produto era gestão de correspondência eletrônica corporativa, anos antes de qualquer brasileiro comum ouvir falar em e-mail.
O giro para a internet veio depois de contato com universidades americanas, no início dos anos 1990. A dupla criou a NutecNet para tocar os investimentos em rede, e o primeiro produto foi um serviço de e-mail. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a empresa trocou de dono três vezes antes de virar Terra: passou pela Companhia Rio Grandense de Participações, depois pelo Grupo RBS, dono da Zero Hora e da Rádio Gaúcha, e só então pela Telefônica. Foi a RBS quem bancou o salto decisivo: comprou o controle por US$ 10 milhões em 1996 e investiu mais US$ 10 milhões na sequência, segundo a mesma nota da TeleTime que registrou a venda para os espanhóis três anos depois.
Em 1º de dezembro de 1996 nasceu o ZAZ, portal de conteúdo e provedor de acesso batizado com o slogan "o seu canal na internet". O projeto inicial foi desenvolvido por duas mulheres da equipe gaúcha, Sandra Pecis e Silvia de Jesus, e cresceu rápido: em 1997 já somava cerca de 100 mil visitas diárias, 59 mil assinantes pagantes e 51 pontos de presença espalhados pelo Brasil. O ZAZ oferecia e-mail grátis, uma novela em quadrinhos chamada Cybercomix e o primeiro serviço de webcasting do país, retransmitindo conteúdo de veículos como O Globo e a própria ISTOÉ.
O negócio de junho de 1999 é onde a história fica turva, e vale contar a divergência em vez de escondê-la. A nota da TeleTime publicada no mesmo dia da venda é explícita: a empresa foi avaliada em US$ 500 milhões, mas os valores exatos da negociação não foram divulgados. Fontes de mercado ouvidas pela publicação diziam apenas que o valor pago cobria as dívidas da RBS, estimadas em torno de US$ 200 milhões, e ainda sobrava dinheiro. Anos depois, sites de referência sobre marcas brasileiras e a própria Wikipédia passaram a repetir a cifra de US$ 250 milhões pela fatia de 51%, número que bate com a conta simples de metade da avaliação de US$ 500 milhões, mas que nenhuma fonte da época confirma como valor oficial fechado. Trate esse número como estimativa consolidada por fontes posteriores, não como o comunicado que a Telefônica ou a RBS de fato divulgaram.
De qualquer forma, o retorno foi descomunal. A RBS converteu vinte milhões de dólares investidos entre 1996 e 1999 em uma fatia de empresa avaliada em meio bilhão de dólares três anos depois. Lacerda e Pretto, que desde a entrada da RBS já não controlavam a maioria do capital, mesmo assim saíram ricos o bastante para o Wall Street Journal, tempos depois, apelidar Lacerda de "o Bill Gates brasileiro".
A fusão de marca veio em etapas. No fim de 1999 e início de 2000, a Telefônica já tocava o portal como "Terra/ZAZ", nome híbrido usado nos jornais da época. Em 21 de janeiro de 2000, a Folha de S.Paulo registrou o anúncio de acesso gratuito da empresa, com Marcelo Lacerda ainda como diretor: "Estamos entusiasmados com a nova perspectiva de oferecer acesso gratuito", disse ele. O serviço, batizado Terra Livre, estrearia em 5 de fevereiro em São Paulo, data que também marca o fim das operações registradas sob o nome ZAZ. Na mesma época, a revista Veja descrevia o Terra/ZAZ como o segundo maior provedor do Brasil, com 380 mil assinantes pagos, e citava Lacerda gabando o caixa da nova controladora: "Dinheiro não nos falta. Podemos suportar essa situação por muito tempo".
A marca Terra nasceu, então, não como criação isolada do caso brasileiro, mas como um guarda-chuva que a Telefônica colou ao mesmo tempo sobre o Olé, na Espanha, e sobre aquisições parecidas na Argentina, no Chile, no México e na Venezuela. Em maio daquele ano, a controladora Terra Networks comprou o portal americano Lycos por US$ 12,5 bilhões, criando a Terra Lycos e ofuscando de vez qualquer rastro visual da origem local de cada mercado. O que era Nutec virou uma peça, entre tantas outras, dentro de um conglomerado batizado, financiado e sediado na Espanha.
Lacerda seguiu ligado à operação por mais algum tempo, como diretor de estratégia e marketing e depois como executivo internacional baseado fora do Brasil, até se declarar em um sabático que planejava manter pelo resto da vida. Durou quatro anos. Ainda dentro desse período de transição, em 2000, ele já tinha fundado ao lado de Pretto e do publicitário Rogério Silberberg a agência digital F.Biz, comprada pelo grupo britânico WPP em 2011. Em 2008, os dois se reuniram outra vez, agora com Silvia de Jesus, a mesma que ajudou a programar o ZAZ original em 1996, para fundar a operadora de banda larga e TV a cabo Blue Interactive, que chegou a ser a segunda maior do gênero no Brasil antes de ser vendida à Claro. Hoje Lacerda trabalha com realidade virtual e efeitos visuais para o cinema, na americana Magnopus. Pretto manteve perfil mais discreto, mas seguiu sócio de Lacerda em praticamente todas as empreitadas seguintes.
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Os dois lados do argumento cabem em um parágrafo cada. De um lado, chamar a Terra de espanhola não é exatamente errado: a partir de 2000 a empresa era financiada, comandada e sediada por espanhóis, listada na bolsa de Madri, e a marca nasceu deliberadamente como identidade única para cobrir mercados diferentes, sem qualquer menção à origem de cada aquisição local. Do outro lado, apagar a Nutec da história é apagar quem fez o trabalho pesado: dois gaúchos que largaram emprego fixo para vender software de e-mail em 1988, uma dupla de mulheres que programou o portal original, e um provedor que já era o segundo maior do país antes de qualquer espanhol assinar um cheque.
O eco moderno é direto: boa parte das marcas "estrangeiras" que o brasileiro usa todo dia carrega esse mesmo tipo de origem enterrada por fusão e aquisição, seja em tecnologia, seja em moda, seja em alimento. A pergunta que fica não é se a Terra é brasileira ou espanhola. É quantas outras histórias como essa o mercado de fusões já apagou tão bem que ninguém sequer sabe que precisa perguntar.
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Verificação concluída: história reconstruída a partir do post Origem das Marcas: Terra Brasil e do verbete ZAZ da Wikipédia, cruzados com fontes de época preservadas no Wayback Machine: a nota da TeleTime News de 16 de junho de 1999 sobre a venda da Nutec, e as reportagens da Folha de S.Paulo de 21 de janeiro e 6 de fevereiro de 2000, além da matéria da Veja de 26 de janeiro de 2000 e do perfil de Marcelo Lacerda publicado pelo Na Prática. O valor de US$ 250 milhões pago pela Telefônica pela fatia de 51% da Nutec, citado pela Wikipédia e pelo blog Origem das Marcas, é estimativa posterior: a cobertura da época (TeleTime, junho de 1999) registra apenas que a empresa foi avaliada em US$ 500 milhões e que os termos exatos da negociação não foram divulgados. Tratamos essa cifra específica como disputada.